Coração Curumim Explica: atividade física no cardiopata

Define-se atividade física como qualquer movimento corpóreo produzido pelo músculo que resulte em um gasto energético superior ao de repouso. Exercício, por sua vez, é um tipo de atividade física planejada, estruturada e repetitiva, com o objetivo de manter ou melhorar a aptidão física.

A atividade física regular traz benefícios a todos os indivíduos; entretanto, os pacientes com cardiopatia precisam ficar atentos às contra-indicações e se consultar com o especialista antes de qualquer prática.

É recomendável que toda criança com cardiopatia realize algum tipo de atividade física, com recomendações individualizadas para cada paciente, já que a inatividade tem sido demonstrada como um fator de risco independente para doenças do coração. Contudo é importante que as atividades físicas sejam supervisionadas, permitindo que a criança as suspenda quando apresentar início ou piora dos sintomas relacionados ao esforço.

A grande maioria das crianças sadias são incentivadas pelos familiares a praticar esportes, porém muitas vezes os pais de um cardiopata sentem insegurança. Diversas são as barreiras criadas para esses pacientes: estigma social pela doença, exclusão das atividades de educação física pelos professores e outras crianças, superproteção familiar, baixo estado socioeconômico e ainda orientações médicas que impõem restrições limitantes à pratica da atividade. Porém, os casos devem ser individualizados, e quando bem indicado, o paciente usufruirá dos benefícios adquiridos pela prática de atividades físicas.

Os principais benefícios da atividade física nas crianças cardiopatas são:

  • Diminuição da frequência cardíaca e da pressão arterial em repouso;
  • Aumento nos níveis do bom colesterol (HDL) e diminuição de triglicerídeos;
  • Melhora da capacidade cardiorrespiratória;
  • Aumento na quantidade de vasos sanguíneos nos músculos ativos;
  • Diminuição da gordura corporal com consequente controle do peso;
  • Melhora dos índices de glicose no sangue (glicemia);
  • Bem estar psicológico;
  • Predisposição para maior atividade física na idade adulta.

Para a indicação correta das atividades físicas, um bom histórico familiar deve ser questionado pois ajuda a identificar em torno de 65% das condições que poderiam proibir ou alterar a participação esportiva. Um diagnóstico completo da cardiopatia é necessário para a definição da atividade física a ser realizada pelo paciente, e como triagem para a prática esportiva e não recreativa, é essencial a realização de um ECG, teste de esforço e/ou ecocardiograma. Deve ser considerado a carga hemodinâmica imposta pelo esporte, o treinamento físico e a situação clínica da criança, além do histórico de cirurgias realizadas.

As recomendações de exercício para o cardiopata vão depender do tipo de defeito e sua gravidade, os resultados após correção cirúrgica quando houver, o tipo de atividade planejada pelo paciente e o desejo deste em praticar determinado esporte ou exercício. Os exercícios competitivos para pacientes portadores de cardiopatias congênitas devem seguir as recomendações mundiais, devendo ser indicados de acordo com o grau de comprometimento cardiovascular de cada paciente.

Quando a cardiopatia é discreta, a atividade recreativa e os esportes de competição pouco ou moderadamente intensos são permitidos e as atividades competitivas intensas só podem ser liberadas com teste de esforço normal. Após cirurgia se bom resultado cirúrgico, a criança pode ter um desempenho físico igual à criança normal, devendo ser liberada após avaliação funcional, em torno de 6 meses de pós operatório.

Cardiopatia considerada moderada, a atividade recreativa pouco ou moderadamente intensa está permitida após a realização de um teste de esforço com resultado normal; e os esforços intensos são contraindicados. Após a cirurgia cardíaca, as lesões residuais são responsáveis, em parte, pela baixa capacidade física, mas a inatividade habitual e a falta de condicionamento aumentam a intolerância ao exercício sendo necessário um programa de reabilitação cardíaca.

Por fim, as cardiopatias importantes só são liberadas para atividade recreativa pouco intensa. A atividade recreativa moderada somente é liberada com teste de esforço normal e as atividades intensas assim como o esporte competitivo são contraindicados.

Em algumas situações, o esforço físico pode elevar o risco de morte cardíaca súbita ou ser limitada por várias doenças como a miocardiopatia hipertrófica, displasia arrtimogênica do ventrículo direito, Síndrome de Marfan (probabilidade de ruptura aórtica), síndrome de Brugada, Síndrome do QT longo; além daquelas malformações cardíacas congênitas em insuficiência cardíaca ou hipertensão pulmonar importante.

O engajamento da criança pós-cirurgia cardíaca deve ser visto como um complemento da terapêutica, sendo de extrema importância para seu desenvolvimento físico, psíquico e social. No pós operatório, a criança ainda sofre de inatividade física devido receio e proteção familiar, falta de orientação e liberação médica, lesão residual importante, cardiopatias complexas e medo ou desinteresse do paciente.

A liberação para realização de atividades físicas é responsabilidade do médico, que deve fazer antes uma avaliação criteriosa e individualizada, respeitando as diretrizes das sociedades médicas e também esclarecer e envolver os familiares nesse processo, permitindo ao seu paciente uma maior qualidade de vida e um menor risco cardiovascular.

Por Priscila Maruoka, médica pediatra intensivista.

A série “Coração Curumim Explica” pretende trazer toda semana artigos sobre assuntos que trabalhem com o tema coração e a cardiopatia congênita.

Imagem em destaque: Pixabay.

Equipe Curumim

AATCC – Associação de Apoio ao Tratamento das Crianças Cardiopatas – Coração curumim

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