Coração Curumim Explica: Coarctação de Aorta (COA)

A coarctação de aorta (CoA) é um estreitamento localizado na porção descendente da artéria aorta, geralmente na zona de inserção do canal arterial. Desse modo, embora seja considerada uma cardiopatia congênita, a CoA é na realidade uma malformação vascular que pode causar sérias alterações no funcionamento do coração. Contudo, existe associação com outras malfomações cardíacas em cerca de 30% dos casos, com destaque para a comunicação interventricular.

Com uma incidência mundial de aproximadamente 4 casos para cada 10.000 recém-nascidos vivos, sua ocorrência corresponde a aproximadamente 7% de todas as cardiopatias congênitas, sendo mais frequente em pacientes portadores de síndromes genéticas. Seu predomínio é maior no sexo masculino do que no feminino (59% vs. 41%).

Anatomia e Fisiopatologia

A aorta é a maior artéria do corpo humano. Ela possui origem no ventrículo esquerdo e a partir dela se originam todas as outras artérias do organismo (com exceção da artéria pulmonar). Desse modo, possui grande importância para o transporte de sangue rico em oxigênio.

Durante a vida no útero não existe alterações no sistema circulatório do bebê. Após o nascimento, o fechamento do canal arterial obriga que todo o sangue proveniente do ventrículo esquerdo siga através da região malformada da aorta. Como existe uma resistência no fluxo sanguíneo nesta região causada pelo estreitamento, o ventrículo esquerdo pode apresentar dificuldade em ejetar o sangue e o fluxo sanguíneo pode ser insuficiente para o organismo funcionar normalmente. A gravidade vai depender do tamanho do estreitamento da aorta, podendo não haver qualquer repercussão clínica nos casos mais leves ou insuficiência cardíaca importante nos casos de coarctação grave.

Figura 1 – Observe a região de estreitamento da artéria aorta.

Diagnóstico e Manifestações Clínicas

O método utilizado para investigação antes do nascimento é a ecocardiografia fetal. Contudo, o diagnóstico de CoA é raramente possível de ser realizado no período pré-natal. Após o nascimento o bebê pode permanecer sem qualquer sintoma enquanto o canal arterial permanecer aberto, ou em casos de estreitamento discreto da aorta.

O médico pode perceber algumas alterações na ausculta dos batimentos cardíacos, no entanto, a presença de sopros podem ocorrer devido a outras situações, como a própria presença do canal arterial.

O sinal clínico clássico da coarctação é a redução ou ausência de pulsos na palpação das artérias femorais, localizadas próximo a região da virilha. Ou ainda pode ocorrer um atraso do pulso nas pernas em relação ao pulso dos braços. Esses sinais são decorrentes da resistência causada ao fluxo de sangue pela região estreita na aorta. Do mesmo modo podem ser encontradas diferenças na pressão arterial entre os membros superiores e inferiores.

Recém-nascidos com CoA graves apresentarão os sintomas de falência cardíaca após o fechamento do canal arterial, evoluindo com dificuldade para respirar, palidez, irritabilidade e alterações nos pulsos e pressões. Esses pacientes entram num estado denominado “choque”, onde o sangue com oxigênio e nutrientes não consegue ser fornecido aos orgãos adequadamente. É uma condição grave que leva o paciente ao óbito se não for revertida.

Pacientes com coarctações leves podem ficar sem descobrir o problema durante muitos anos. Adultos geralmente descobrem a presença de coarctação quando procuram o médico devido a pressão alta.

Tratamento

As decisões com relação ao tratamento a ser realizado vão depender da idade do paciente e da gravidade da lesão. A decisão da realização de correção da CoA em crianças maiores e adultos é baseada nos sintomas e nos dados obtidos pelo exame de ecocardiografia.

Existem atualmente duas opções de tratamento corretivo da CoA: cirurgia aberta ou angioplastia com balão. A grande maioria dos serviços realizam o tratamento dos casos graves em recém-nascidos por meio da cirurgia aberta. A estratégia cirúrgica, o local da incisão e a utilização da máquina coração-pulmão vão depender do tipo de CoA e da presença de outras malformações associadas.

Em casos de coarctação isolada, ou seja, sem outras malformações, pode ser realizada a ressecção da região de constricção e sutura das bordas da aorta (figura 2A). Em outras situações pode ser necessário a utilização de “patchs” (membranas naturais) ou próteses sintéticas para corrigir o estreitamento ou criar um caminho alternativo para o fluxo sanguíneo.

Em crianças maiores e adultos o tratamento pode ser realizado através da angioplastia com balão. Nesse procedimento é inserido um fio metálico através da artéria femoral, próximo a região da virilha, até atingir a região da CoA. Através do fio é inserido o balão que irá dilatar a região de estreitamento (figura 3). Esse procedimento apresenta menores complicações do que a cirurgia aberta, no entanto, possui taxas maiores de recoarctação, ou seja, ocorrência de novos estreitamentos com necessidade de novo tratamento.

Figura 3 – Angioplastia com balão.

Prognóstico

Após a correção cirúrgica os pacientes precisarão realizar seguimento regular com o cardiologista e podem necessitar de medicamentos. Em alguns casos serão necessárias novas intervenções devido a ocorrência de recoarctação de aorta. Estima-se que após 30 anos da correção cirúrgica 74% dos pacientes ainda estarão vivos (dados norte-americanos). Muitos poderão ter uma vida normal, inclusive com realização de atividades físicas.

Por Tiago Souza, médico pediatra intensivista (UNICAMP).

Referências das figuras:

http://www.medicinapratica.com.br/tag/coartacao-da-aorta/
http://www.clevelandclinicmeded.com/medicalpubs/diseasemanagement/cardiology/congenital-heart-disease-in-the-adult/
http://www.rch.org.au/cardiology/heart_defects/Coarctation_of_the_Aorta_HD/

A série “Coração Curumim Explica” pretende trazer toda semana artigos sobre assuntos que trabalhem com o tema coração e a cardiopatia congênita.

Imagem de destaque via Pixabay.

Equipe Curumim

AATCC – Associação de Apoio ao Tratamento das Crianças Cardiopatas – Coração curumim

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