Coração Curumim Explica: Ventrículo Único

No último artigo publicado o tema abordado foi sobre a Palivizumabe e a Profilaxia da Infecção por Vírus Sincicial Respiratório. Hoje iremos falar um pouco sobre o Ventrículo Único.

Como já vimos em textos anteriores da série “Coração Curumim Explica“, um coração normal possui quatro câmaras cardíacas em seu interior: dois átrios e dois ventrículos. Chamamos de Ventrículo Único as malformações cardíacas que apresentam somente um ventrículo funcionante que envia sangue para as duas circulações do corpo humano: a sistêmica e a pulmonar. Possuem os dois átrios formados, porém os dois “desembocam” em um único ventrículo que pode ser do tipo esquerdo ou direito.

Figura: coração normal e coração com ventrículo único.

É uma malformação complexa e rara, estimada em 1% dos portadores de cardiopatia congênita. Existem outras anomalias associadas ao Ventrículo Único, como a atresia tricúspide (quando a valva tricúspide é totalmente fechada), atresia mitral (valva mitral fechada), lesões obstrutivas na aorta ou na artéria pulmonar, dentre outras.

Diagnóstico

Pode ser feito ainda durante a gestação, com o ecocardiograma fetal (ultrassom do coração do feto).
Após o nascimento, a suspeita diagnóstica é feita através da clínica do bebê, teste do coraçãozinho alterado, e então confirmado após a avaliação do cardiologista com o ecocardiograma. O diagnóstico precoce é essencial para melhor conduta do paciente, evitando assim possíveis complicações clínicas.

Clínica

Os sintomas dependerão das lesões que acompanham o Ventrículo Único. Há mistura do sangue venoso (com menos oxigênio) com o sangue arterial (rico em oxigênio). Portanto, o bebê apresentará cianose, ou seja, cor roxa nos lábios e dedos, e seu grau de intensidade varia conforme as lesões associadas. Além disso, o bebê apresentará cansaço para respirar, pulso fraco, coração mais acelerado, podendo evoluir com quadro de maior gravidade. Por conta dessa complexidade o bebê necessita de internação em uma unidade de terapia intensiva (UTI) logo após o nascimento.

Tratamento

O tratamento é cirúrgico, e realizado em 3 etapas. A primeira etapa é paliativa e realizada ainda nos primeiros 15 dias de vida. Dependendo das malformações associadas no paciente, nesta etapa pode ser realizada a cirurgia de Blalock-Taussig (um tubo colocado entre o ramo da aorta e a artéria pulmonar) ou a cirurgia da bandagem das artérias pulmonares (uma fita que “aperta” a artéria pulmonar). Após essa etapa o bebê ficará com menos sintomas, melhorando seu desenvolvimento e ganho de peso para a próxima cirurgia.

A segunda etapa é feita por volta dos 4 a 6 meses de idade e é feita a cirurgia de Glenn (conexão entre a veia cava superior e a artéria pulmonar). Em muitos serviços, entre a etapa 1 e 2, o bebê pode ficar internado no hospital para ser medicado e monitorizado; porém pode também aguardar a segunda etapa em casa, com acompanhamento com cardiologista.

A terceira e última etapa é a Cirurgia de Fontan (conexão entre a veia cava inferior e a artéria pulmonar), realizada entre 2 e 4 anos de idade quando seus pulmões estiverem mais maduros. Após essa cirurgia o sangue flui de forma passiva para os pulmões e o único ventrículo bombeia sangue oxigenado para o corpo. Assim, o paciente terá a circulação sistêmica separada da pulmonar, tornando o coração mais próximo a um coração normal. Em condições ideais, o paciente não fica mais roxo, o ventrículo principal fica menos sobrecarregado e a criança passa a ter um crescimento normal.

A criança apresentará limitações para atividades competitivas mesmo após o término do terceiro estágio, sendo liberado para as atividades recreativas lembrando sempre de respeitar seu cansaço. O acompanhamento com cardiologista frequente será necessário para avaliação do coração com ecocardiograma. O paciente deverá tomar as medicações corretamente para evitar descompensações clínicas. O cuidado extremo com o tratamento dentário deve ser sempre lembrado.

Por Priscila Maruoka, médica pediatra intensivista.

A série “Coração Curumim Explica” pretende trazer toda semana artigos sobre assuntos que trabalhem com o tema coração e a cardiopatia congênita.

Imagem em destaque: Pixabay.

Equipe Curumim

AATCC – Associação de Apoio ao Tratamento das Crianças Cardiopatas – Coração curumim

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